O tema do texto é bem sugestivo, é uma das expressões mais
utilizadas pelos brasileiros quando quer retratar alguém que tem atitudes
extremas. Alguém em certo momento age calmamente, mas em um momento seguinte
tem uma atitude nervosa. Então dizemos: fulano nem é 8 e nem 80. Com a igreja
não é diferente. Refiro-me à igreja [instituição] e não à Igreja [coluna e
firmeza da verdade – 1 Tm 3.15], em especial a Assembleia de Deus – maior
denominação evangélica desse país – e que faço parte desde 1998 [como congregado]
e desde 2007 [como membro].
Por muito tempo esta denominação fechou os olhos para o ensino
teológico para os estudos bíblicos e até mesmo para temas relacionados à
educação cristã. Só se pensava em batismo com Espírito Santo, línguas estranhas
e hinos ditos “pentecostais”. Com raríssimas exceções. Muitos pastores até
diziam que na era bom que os irmãos lessem ou estudassem muito a Bíblias, pois
eles poderiam esfriar na fé.
Durante as décadas de 70, 80 e 90 esta igreja cresceu
espantosamente, tendo sempre a mesma pregação dos pioneiros Daniel Berg e
Gunnar Vingren: “Jesus Cristo salva, cura, batiza com Espírito Santo e prepara
o homem para morar no céu”. No entanto, apesar do crescimento, existiam sérios
problemas, como a falta de um bom ensino bíblico para os novos na fé e a
atenção excessiva dada à questão dos usos e costumes. Vale ressaltar que não
sou contra os usos e costumes, desde que sejam ensinados da maneira correta,
com base bíblica, e nas ocasiões certas. Infelizmente, durante muitos anos
“coamos mosquitos e engolimos camelos” (Mt 23.24) – isto é, enfatizamos os usos
e costumes em detrimento de outras doutrinas também essenciais fé cristã.
Apesar das dificuldades, os crentes – em sua boa parte – eram
cheios do Espírito Santo e tinham a evangelização como motor propulsor da
igreja, e como chama em seus corações. Os trabalhos de oração eram cheios e
milagres eram realizados. Alguém até dizia: “Se um dia eu for crente, serei da
Assembleia de Deus”. As vigílias eram verdadeiramente de oração, na era
necessário entretenimento, pois a presença do Espírito Santo enchia a vida dos
crentes. Alguns passavam dos limites da emoção e da razão, por isso durante
muito tempo fomos conhecidos como os crentes do “reteté”.
Bem, tempos se passaram. Éramos 8 no conhecimento Bíblico e 80 na
busca pelo poder de Deus. Evoluímos e regredimos. Avançamos muito no âmbito
teológico, graças a Deus e graças a homens piedosos como o Pr. Antônio Gilberto
– maior exegeta da Assembleia de Deus no Brasil – que enfrentou sérias
dificuldades para que o ensino bíblico também fosse prioridade. Hoje tempos o
CAPED – Curso de Aperfeiçoamento de Professores da Escola Dominical e também o
IBAD – Instituto Bíblico das Assembleias de Deus – e várias outras escolas
teológicas espalhadas pelo vasto Brasil.
No entanto, esfriamos... As vigílias – em sua maioria – não são
mais de oração, os cultos são feitos, alguns deles, para o homem, outros
parecem cerimônias fúnebres, onde os crentes estão tristes e calados ao ver
Jesus em um caixão no meio do templo. Os círculos de oração só enchem em época
de festa, e olhe lá. Hoje se prefere os shows denominados gospels. As pregações
que agradam são as antropocêntricas, e não as Cristocêntricas. Os louvores
seguem o mesmo caminho [ou seriam apenas músicas?]. Hoje temos até supostos
ministros de louvor, levitas... Será que voltamos à antiga aliança? Quem dera
os cantores terem a unção dos levitas...
Outrossim, os batismos são raros, é preciso chamar o povo à frente
para Jesus batizar (?), alguns crentes não querem mais ser batizados, acham
retrógrado e antiquado ser cheio do poder de Deus. Outros nem crêem mais.
Tornamos-nos meros religiosos, com muito conhecimento bíblico, mas com pouca
unção. Então surge a pergunta: qual foi o nosso erro? Crescemos muito no
conhecimento e pouco na graça. Ficamos 80 no conhecimento bíblico e 8 na busca
pelo poder divino. Temos uma geração muito pobre no conhecimento sobre Deus,
nos assemelhamos à época dos juízes [ver Jz 2.10]. Faltou-nos equilíbrio. O
desequilíbrio gera o sério risco de desvio, seja para a direita [o do
legalismo, do farisaísmo] ou para a esquerda [da libertinagem].
No sermão do monte, Jesus disse: “Vós sois o sal da terra” (Mt
5.13), uma das funções do sal é dar equilíbrio. Neste caso, ou estamos ficando
sem sal ou estamos salgando demais. Fico com a primeira opção. O equilíbrio é
fundamental tanto para o crescimento sadio do crente em Jesus, quanto de uma
igreja. Assim, a igreja cresce na graça, mas também no conhecimento. Graça e
conhecimento andam juntos. Sem a graça o conhecimento é especulativo, vazio.
Sem o conhecimento a graça é oca.
Diante do exposto acima, é evidente que é o tempo de acordamos, é
tempo de buscarmos ao Senhor, seja através da sua Palavra, da oração ou do
jejum. É tempo de seguirmos o que diz o versículo: “Perguntai pelas veredas
antigas, qual é o bom caminho, e andai nele” (Jr 6.16). Como disse Jesus:
“Guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes” (Mc 8.15).
Sejamos equilibrados. Nem 8 e nem 80. Amém?
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